domingo, 16 de maio de 2010

NESTOR TANGERINI / EM NITERÓI

CONFESSANDO

Por Deus, Seu Padre, rogue a Deus um meio
de me afastar do pecado, Padre;
não deixe que Satã, como o receio,
num leito de Procusto já me enquadre.

Eu não jogo, eu não roubo, eu não odeio,
não tenho amante à guisa de comadre,
não faço mal nem digo nome feio:
eu quase, quase que sou santo, Padre.

Mas a gula... Sim, Padre, sou guloso:
minha fraqueza está neste pecado:
gostar de tudo aquilo que é gostoso.

Tenho a gula afiada como goiva:
não posso ver de perto bombucado
nem pôr os olhos num colchão-de-noiva. (*)


Autor: Nestor Tangerini


(*) Publicado no jornal O FLUMINENSE,
Niterói, RJ, 1927.

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